As gafes presidenciais no exterior que entraram para o folclore nacional

O discurso de Bolsonaro na ONU contrasta com pronunciamentos atabalhoados e frases cômicas de seus antecessores. Veja a matéria na íntegra no blog luciazevedo.com.br

Democracia, defesa das vacinas, respeito à Constituição, agronegócio, preservação do meio ambiente e modernização da economia. Esses foram os principais tópicos abordados pelo presidente Jair Bolsonaro em seu discurso na 76ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU).

“Nossa moderna e sustentável agricultura de baixo carbono alimenta mais de 1 bilhão de pessoas no mundo e utiliza apenas 8% do território nacional”, afirmou Bolsonaro, ao mencionar que povos indígenas têm 14% de terras e que 85% da Amazônia está intacta. Sobre o processo de desestatização, lembrou: “Até aqui, foram contratados US$ 100 bilhões de novos investimentos e arrecadados US$ 23 bilhões em outorgas.” O presidente ressaltou ainda a modernização do saneamento e das ferrovias — investimentos em infraestrutura podem chegar a R$ 238 bilhões até 2022. “Esse é um país não retratado pela mídia”, resumiu Bolsonaro.

Apesar das informações verídicas e do tom mais moderado do presidente em comparação ao pronunciamento de 2019, a imprensa tradicional criticou – como criticaria qualquer que fosse o conteúdo. Algumas das manchetes: “A ONU e o mundo se ridicularizam diante de Bolsonaro”; “Bolsonaro vendeu na ONU Brasil irreal”; “Na ONU, Bolsonaro mente e fala sobre tratamento ineficaz contra o coronavírus”; “Bolsonaro esbanja negacionismo nos EUA e prega para convertidos”.

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O discurso de Bolsonaro contrasta com pronunciamentos atabalhoados e frases cômicas de seus antecessores na ONU ou em viagens oficiais ao exterior. Confira:

Dilma Rousseff

Em 26 de setembro de 2015, Dilma ressaltou na ONU a importância de “se estocar vento” como forma de melhorar o setor energético brasileiro: “Até agora, a energia hidrelétrica é a mais barata em termos do que ela dura, da sua manutenção e pelo fato da água ser gratuita, e da gente poder estocar. O vento podia ser isso também. Mas você não conseguiu ainda tecnologia para estocar vento.”

Um mês depois, em um encontro com ministros de Estado e diplomatas, disse que o Brasil vivia um “golpe democrático à paraguaia”. À época, já se discutia a abertura de um impeachment contra a petista. Dilma quis se referir ao processo de impedimento que derrubou o então presidente do Paraguai, Fernando Lugo, em 2012, por suspeita de corrupção. A chancelaria daquele país chegou a convocar o embaixador brasileiro para se pronunciar sobre a fala.

Quando ministra-chefe da Casa Civil do governo Lula, Dilma já havia protagonizado uma gafe internacional. “O meio ambiente é, sem dúvida nenhuma, uma ameaça ao desenvolvimento sustentável”, disse, em 2009, durante a cúpula sobre mudanças climáticas em Copenhagen, na Dinamarca. “Isso significa que é uma ameaça para o futuro do nosso planeta e dos nossos países”.

Lula

Num discurso de improviso ao lado do então presidente da Namíbia, Sam Nujoma, em Windhoek, Lula associou a África à pobreza e à feiura. Ele ainda manifestou o desalento pela imagem de um Brasil habitado por ”índios pobres”. ”Estou surpreso porque, quem chega a Windhoek, não parece que está num país africano”, disse, em 2003. ”Acho que poucas cidades do mundo são tão limpas e bonitas arquitetonicamente quanto esta cidade. E um povo extraordinário como tem.”

Em seguida, Lula fez uma analogia: “A visão que se tem da América do Sul é que nós somos todos índios pobres. A visão que se faz da África é a de que também é um continente só de pobres.”

Os deslizes também ocorreram durante uma viagem a Londres, em 2006. Lula participou de um banquete oferecido pela rainha Elizabeth 2ª e, chamado para discursar, elogiou a “contribuição do inglês Charles Miller ao futebol brasileiro. Miller era paulista, filho de um inglês com uma brasileira.

Michel Temer

Nem mesmo o polido e cauteloso Michel Temer escapou das gafes. Durante um encontro com a primeira-ministra norueguesa em 2017, Temer chamou Harald V, monarca norueguês, de “rei da Suécia”, país vizinho escandinavo, e se referiu ao “parlamento brasileiro”, em vez do norueguês. O discurso foi realizado numa declaração de despedida do encontro com Solberg. O presidente agradeceu a hospitalidade das autoridades e dos noruegueses.

“Embora voltando hoje (23.jun) ao Brasil, desde já, com a reunião que tivemos ontem com os empresários e da reunião que tivemos agora com Vossa Excelência e, mais adiante, com o parlamento brasileiro e, um pouco mais adiante, com sua majestade, o rei da Suécia, eu já tenho a mais firme convicção de que, embora muita rápida nossa visita, ela estreita cada vez mais os laços do Brasil com a Noruega”, disse Temer.

Exatamente um ano antes, o presidente chamara de “soviéticos” empresários russos. O termo caiu em desuso junto com o Muro de Berlim, em 1986.

FHC

Em 1994, ao saudar o então presidente da República Tcheca, o dramaturgo Václav Havel, FHC ressuscitou a velha Tchecoslováquia: “É uma grande satisfação estar na Tchecoslováquia”. A Tchecoslováquia, emblema da “cortina de ferro” e do comunismo, já não existia desde 1º de janeiro de 1993, quando a Eslováquia e a República Tcheca se separaram.

José Sarney

Em 11 de setembro de 1986, depois de falar por cerca de 20 minutos em português exaltando as democracias brasileira e norte-americana no Congresso dos EUA, Sarney finalizou o pronunciamento em péssimo sotaque inglês, lendo o trecho de um poema de Walt Whitman: “Welcome, Brazilian brother/ Thy ample place is ready; /A loving hand / A smile from the North /A sunny instant hail!” (“Bem-vindo, irmão brasileiro /teu amplo espaço está pronto; /Uma mão amorosa /um sorriso do norte /uma saudação instantânea ensolarada!” — em tradução livre).

Fonte revista Oeste