Com oferta maior que procura, estados dos EUA dispensam doses de vacina contra a Covid-19

Museu Americano de História Natural, em Nova York, foi transformado em centro de vacinação | Foto: ANGELA WEISS / AFP/23-4-21

A campanha de imunização contra a Covid-19 nos Estados Unidos enfrenta uma queda na busca por doses que ameaça atrasar os planos do presidente Joe Biden de vacinar 70% dos americanos até julho. Vários estados estão rejeitando as vacinas alocadas pela Casa Branca, enquanto outros lançam incentivos para turistas em busca da inoculação. Em breve, por exemplo, deverá ser possível se vacinar na Times Square ou no Empire State Building.

Foram mais de 235 milhões de doses aplicadas até o 100º dia de governo Biden, mais que o dobro da meta inicial de 100 milhões, que muitos diziam ser pouco ambiciosa. Em 10 de abril, os EUA inocularam recordes 4,6 milhões de pessoas.

Desde o meio do mês passado, no entanto, a média diária de vacinação caiu cerca de 41% e, no sábado, ficou aquém de 2 milhões pela primeira vez desde o início de março. Ao contrário da maior parte do planeta, onde há escassez de doses, nos EUA faltam braços interessados.

Segundo a Associated Press, o Wisconsin pediu que o governo federal envie apenas 8% das 162.680 que haviam sido alocadas para a semana que vem. Em Iowa, a quantia requisitada corresponde a 29%. Já Illinois pediu apenas 9% do previsto para todo o estado, exceto para Chicago.

As Carolinas do Norte e do Sul, Connecticut e o estado de Washington também reduziram suas encomendas. Alguns lugares, como Nova York, Maryland e Colorado, no entanto, as mantiveram.

Para fomentar a vacinação, os estados e cidades recorrem a estratégias variadas. Em São Diego, na Califórnia, empresas, grupos e instituições com capacidade para centenas de pessoas que queiram vacinar seus membros podem requisitar um “evento de vacinação coletiva”. Basta preencher um formulário on-line, que será avaliado pelas autoridades do condado.

O estoque de doses abre também uma oportunidade para a retomada do turismo, setor praticamente paralisado pela pandemia. Buscando atrair novamente visitantes para Nova York, o prefeito Bill de Blasio planeja disponibilizar vans de vacinação em pontos turísticos populares da cidade, como a Times Square, para inocular quem desejar, sem agendamento.

A ideia é usar as doses únicas da Johnson & Johnson, que podem ser armazenadas em temperaturas normais por até três meses. Para ser posto em prática, o plano depende do aval do governador Andrew Cuomo e da suspensão de leis locais que limitam à vacinação a nova-iorquinos e quem trabalha no estado precisam ser mudadas.

A Flórida, que rescindiu no mês passado uma regra que limitava as vacinas aos moradores do estado, viu um aumento do turismo da vacina, inclusive de brasileiros. O governo do Alasca anunciou que fará o mesmo a partir de 1º de junho.

O Texas, por sua vez, vê um fluxo de turistas mexicanos ávidos pelas doses ainda escassas em seu país: se a fronteira terrestre continua fechada, basta recorrer a um curto voo. Em abril, 207 mil passageiros saíram dos aeroportos mexicanos para os EUA, em comparação com 177 mil em março e 95 mil em fevereiro, segundo dados preliminares do aeroporto.

Em paralelo, com vacinas de sobra, os EUA são cada vez mais pressionados a dividi-las com o resto do mundo e pôr um fim às medidas protecionistas que impedem a exportação de doses e insumos, especialmente diante da dimensão da crise na Índia. As disparidades entre países ricos e pobres são gritantes: 83% das doses aplicadas até o momento no planeta foram em países ricos ou de renda média-alta. Apenas 0,3% das vacinas foram aplicadas em países pobres.

Biden disse que irá doar 60 milhões de doses da Universidade de Oxford-AstraZeneca, que os EUA sequer aprovaram, até julho, mas não anunciou como ou para quem. Ele também decidiu apoiar na Organização Mundial do Comércio a quebra das patentes das vacinas contra a Covid-19, revertendo sua posição anterior. Seu projeto, contudo, deverá ser menos abrangente que a proposta indiana e sul-africana, que tem o apoio de mais de 90 países.

O Globo